Crônica de Natal

Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

Minha relação com o Papai Noel – ou com o Santa Claus, como o preferem chamar nossos amigos anglófonos – sempre foi permeada por bastante preocupação da minha parte. Primeiro porque com a atual constituição das leis de direitos autorais e com o elevado custo das patentes, me intrigava muito a maestria com que ele era capaz de reproduzir em sua modesta oficina de duendes, lá no Polo Norte, brinquedos tecnologicamente avançadíssimos como Playstations e Nintendos e, o que é mais incrível: não ser processado pelas grandes corporações de produtos eletrônicos.

Aos nove ou dez anos, eu tinha total convicção de que os japoneses eram homens muito bonzinhos que, na hora de cobrar os royalties, aliviavam a barra do velho Nicolau. Vai ver porque, e eu realmente suspeitava disso, a maior parte dos duendes era composta de pequenos orientais. Ou você acha que são mãos polonesas que fabricaram aqueles tênis Nike que o bom velhinho deixou para você no natal de 94?

Sempre tive uma opinião não muito favorável a essa história de renas voadoras. Rudolph e companhia que me perdoem, mas este meu Papai Noel businessman não conseguiria otimizar a sua logística usando um trenó e entregando todos os presentes pessoalmente, conseguiria? A Noel Inc. devia ter, na verdade, um excelente contrato com a FedEX.

Convencido disso, acreditei neste Papai Noel - muito mais verossímel, convenhamos – por mais de treze anos. Embora eu sempre tivesse na ponta da língua todas as mais plausíveis suposições acerca de sua existência, não fosse pela vinda dos Rolling Stones em 97, outras crianças teriam me convencido de que era tudo uma “mentira que sua mãe conta”.

O fato é que estava eu, com meus nove anos, diante da TV, assistindo maravilhado o Charlie Watts tocar bateria com os Stones. Lembro-me de repetir, cacofonicamente, no meu inglês disléxico e infante, algo que hoje soaria parecido com “I Can Get No... Satisfaction”. Eu nunca desejei tanto ter uma bateria. Podia me imaginar no fundo do palco, no comando das baquetas, dando uma piscadela para o Mick Jagger justo na hora daquela rufada de caixa que dá início à canção. Recordo-me de nunca ter comentado com ninguém sobre este sonho de tocar o instrumento. Era para ser um segredo meu e dos Stones, mas o Papai Noel descobriu de alguma forma e, quando acordo na manhã do dia 25, encontro em cima dos meus chinelos, uma pequena bateria. No início, julguei que o velho Santa lia os nossos pensamentos, mas, assustado com essa possibilidade, preferi pensar que ele tinha pago algum informante para descobrir o que queria aquele garoto que não lhe havia escrito cartinha alguma.

Acredite, quando os Stones dizem para você que o Papai Noel existe, não é o passar dos anos, muito menos a entrada na vida adulta que o fará pensar o contrário.

Hoje pela manhã, fui ao banco retirar os meus últimos trocados para as compras de natal. Na minha frente, fazendo questão de enfrentar a fila – embora a idade já o concedesse o caixa especial – estava um velinho gordo e barbudo, com cabelos grandes e desgrenhados. Retirava de uma bolsa-carteiro vermelha algumas contas para pagar quando, por descuido, derrubou toda a sua papelada aos meus pés. Ao me inclinar para ajudá-lo, pude ver uns papéis de contrato da FedEx, uma envelope escrito em algo que deviam ser ideogramas japoneses, além de uns comprovantes de passagem da American Airlines. Ao estender a mão para me agradecer, o velinho tornou visível uma tatuagem no braço, onde, batalhando contra o desgaste dos anos, sobrevivia orgulhosa uma tatuagem com a insígnia-língua dos Rolling Stones.

Esboço sem Quadro

Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

O livre-arbítrio é, certamente, um de nossos mais fustigantes direitos. A possibilidade de escolha, tal qual uma bifurcação diante da qual se prostra o eremita, nos amedronta face ao obscuro que se projeta à frente de qualquer escolha possível. A decisão, e com ela o fardo de ter de abandonar as outras possibilidades, é tão necessária quanto atormentadora e, sem outra escolha a não ser escolher, decidimos por um caminho.

O reflexo de nossa resolução, ainda que próspero, não nos isenta da tentação de reconstruir na memória o momento em que tivemos que optar, e agora mentalmente, lançarmos a dolorosa indagação: “E se?” E se outros caminhos fossem escolhidos, como eu estaria agora? Teria sido uma decisão mais próspera? Dada a impossibilidade de precisar o indagado, ou mesmo de revivê-lo, questionamentos como este nos supliciam.

Ou então nos motivam a fazer arte.

A arte permite ao homem edificar as realidades sobre as quais tanto divaga, permite inclusive, emparelhar realidades alternativas dentro de uma mesma obra, como se cada uma fosse uma face de um objeto e arte nos permitisse planificá-lo. Escritores, roteiristas e diretores de cinema recorrem, vez por outra, a esse emparelhamento de realidades. Realidades estas que têm ponto de partida comum, mas que, com o tempo, se enveredam por estradas divergentes, obedecendo às leis de causa e efeito.

Neste sentido podemos listar contribuições de três diferentes cinematografias. O cinema americano nos traz o filme “Efeito Borboleta”, em que ao protagonista é dada chance de reescrever o próprio passado, no intento de estabelecer para si um futuro que considera mais satisfatório; no cinema brasileiro temos o filme “A dona da História”, protagonizado por uma senhora de meia idade que ao fazer um balanço de sua vida, revisita seu passado e lança diversos “E se?” aos quais responde através da imaginação; e temos o mais ousado e experimental, o alemão “Corra Lola Corra”, no qual não só as decisões são alteradas, como o filme inteiro recomeça a cada nova escolha da protagonista. Vemos por completo as transformações narrativas alterando início, meio e fim.

Fatalmente, o vislumbre proposto pela arte não nos retira o peso de nossas escolhas. É preciso abraçar o confronto do que éramos – e a decisão que nos parecia acertada naquele determinando momento – com o que somos – e a decisão não tomada, que, à luz de nossa atual compreensão, nos parecia mais apropriada. É necessário ver nesse inevitável confronto a dialética que sintetizará em maturidade as nossas experiências de vida.

A arte, apesar de seus inverossímeis vislumbres, não se faz cega a essa nossa fatalidade, e é sobre ela que pondera o escritor checo Milan Kundera, em seu romance “A Insustentável Leveza do Ser”: “não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez, sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um rascunho. Mas nem mesmo rascunho é a palavra certa, porque um rascunho é sempre um esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o rascunho que a nossa vida é, não é rascunho de coisa alguma, é um esboço sem quadro.”


Link para o IMDB dos filmes:
Lola Rennt (Corra Lola Corra) - http://www.imdb.com/title/tt0130827/
The Butterfly Effect (O Efeito Borboleta) - http://www.imdb.com/title/tt0289879/
A Dona da História - http://www.imdb.com/title/tt0395994/

Newton e os Bosquímanos

Sábado, 18 de Agosto de 2007

"Discussões sobre a criatividade, alimentadas pelo filme Os Deuses devem estar loucos (THE GODS MUST BE CRAZY, Jamie Uys, África do Sul, CAT Films, 1981, 109min, son. color.35mm)"

Um piloto de avião bebe sua Coca-Cola, ao sobrevoar o deserto do Kalahari, Africa do Sul, em seu monomotor. Instantes depois de saciada a sede, o piloto atira, despreocupadamente, a garrafa de vidro vazia para fora da aeronave. A garrafa, obedecendo à lei da gravidade estudada pelo cientista inglês Isaac Newton, descreve uma trajetória curvilínea e acelerada até alcançar o chão.

Os bosquímanos, pertencentes a uma tribo que nunca experimentou o contato com a civilização, observam aquilo que chamam de flatulência divina lançar do céu um estranho objeto. O que nós chamaríamos de casco e devolveríamos ao vendedor após o uso, Xi e os outros membros de sua tribo logo chamariam de presente dos Deuses.

Reunidos diante da coisa mais bonita que eles haviam visto -- clara como água e mais rígida do que qualquer outro material conhecido, -- os bosquímanos matutavam sobre o porquê dos Deuses os concederem tal presente, e qual seria o seu uso. Em pouco tempo, um deles descobriu que poderia curtir o couro de animais com o frasco, outro percebeu sua grande utilidade para socar o pilão, ao passo que um terceiro viu no objeto um versátil instrumento musical. A cada momento surgia um novo uso para a dádiva divina.

Os bosquímanos, naquele momento, realizam um processo mental que envolve a geração de novas idéias, ou novas associações entre idéias e conceitos já existentes. Processo a que nos referimos como criatividade. “Creativity consists largely of re-arranging what we know in order to find out what we do not know”, esclarece George Kneller em sua obra The art and science of creativity.

Os mesmos tribais realizam o processo em questão para sobreviverem à aridez do Kalahari, e com isso, concluímos que a criatividade é condição para a existência do ser humano, e se revela tanto em grupos civilizados urbanos quanto em sociedades aborígenes, usada tanto para adequar-se ao meio, quanto para modificá-lo ao seu favor.

Ao contrário de outros fenômenos científicos, não existe definição absoluta da criatividade, muito menos padrão quantificador. O que se encontra na literatura especializada, são mais de sessenta definições diferentes para o termo. O academicismo propõe a manifestação da criatividade na produção do trabalho criativo, contanto que seja inédito e útil. Todavia, esta visão não esgota as possibilidades de análise, muito menos impera absoluta e irrefutável. As noções de ineditismo como condição vem por terra diante da concepção de que nada se cria a partir do nada, e o pragmatismo, também considerado como condição, só procede se atribuirmos à arte, também produto do trabalho criativo, uma função prática além da contemplação.

Uma série de definições informais, estabelecidas pelo senso comum, costuma tratar a criatividade como um processo que resulta: a) na produção de algo parcial, ou totalmente novo (a admissão da parcialidade confronta ineditismo x mimetismo criativo); b) na imaginação de possibilidades não concebidas até o determinado momento (a garrafa num contexto em que ninguém conhece as bebidas engarrafadas, concedeu a quem a vislumbrava a possibilidade de uma imaginar para o objeto uma função); e finalmente, c) na visualização ou realização de algo de uma maneira diferente do que se considerava anteriormente normal e possível.

Para Johnson, D.M. a atividade criativa deve exibir muitas dimensões, dentre elas a sensibilidade do agente criativo para com a problemática da criação, a originalidade, a ingenuidade, o pensamento não convencional e a utilidade e apropriação em relação ao produto criativo. Assim, resolve-se a ilustração dos Bosquímanos e Criatividade. O objeto “garrafa de vidro”, oriundo de um contexto diferente, e sob o olhar ingênuo dos tribais, ganha um novo sentido, não convencional se perfilado pelo olhar civilizador, e ainda assim deveras original.

Ao iniciarmos um discurso sobre a Criatividade sob o escopo do pragmatismo, não tínhamos a pretensão de excluir a associação comum feita entre a arte e a criatividade. Neste campo apenas a originalidade é exigida. O uso prático e a apropriação e reconfiguração de conceitos anteriores, quando nos referimos à arte, não são estritamente necessários. A intencionalidade de explorar a criatividade em outros contextos surge como uma quebra da conceituação corriqueira de criatividade como apenas aplicável em campos que envolvam-se diretamente com o trabalho artístico e a comunicação social. Quebra de conceitos, aliás, é um estágio embrionário do pensamento científico, ao passo que, idéias criativas são geradas quando alguém descarta noções pré-concebidas e realiza uma nova abordagem que pode parecer, a princípio, impensável para os outros. Comprovemos a afirmação através da semelhança existente entre o que, nos estudos da criatividade, conhecemos como processo divergente e no método científico cartesiano nomeamos de fase de elaboração das hipóteses: inicialmente esforça-se para conceber inúmeras novas idéias e, após isso, descarta-se as que forem sem utilidade ou mostrarem-se menos coerentes.

Foi através desta percepção criativa, e também cartesiana, da realidade, que, reza a lenda, Isaac Newton descobriu a gravitação ao observar uma maçã caindo e retirar dali o insight que, séculos depois nos permitiria afirmar que uma garrafa de vidro só cai de um avião em queda livre graças à força da gravidade.

Assista a cena em questão:

IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0080801/
Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Gods_Must_Be_Crazy

Cinema Morto

Segunda-feira, 23 de Julho de 2007

De todos os universos desenvolvidos por diretores de cinema, um que sempre me provocou fascínio foi o apocalíptico mundo dos mortos-vivos criado pelo filmmaker George Romero e sua trupe (Tom Savini, Greg Nicotero, Dario Argento).

A primeira vez que eu tive contato com um morto-vivo eu tinha acabado de fazer 9 anos. Minha mãe trabalhava em outra cidade, e como todo bom filho único criado em apartamento, não me restava muito para fazer às tardes durante a semana – a não ser assistir TV, e ler alguns poucos livros pela décima vez. Como nunca tive muita paciência para “cachorrinhos espertos” e “galerinhas da pesada vivendo aventuras do barulho”, na hora em que a Globo começava a exibir a Seção da Tarde, eu rapidamente trocava o canal para a TV Bandeirantes, que nessa época exibia, todas as tardes, o saudoso Cine Trash.

O programa em questão era apresentado pelo José Mojica Marins, um cineasta mais conhecido como Zé do Caixão, que nos intervalos do Cine Trash rogava a praga do dia para os seus telespectadores. Depois de uma década, não consigo lembrar de nenhuma das pragas ou de muitos dos filmes que aterrorizavam as minhas tardes de infância, entretanto nunca esmaeceram na minha mente as cenas de “Noite dos Mortos Vivos” (Night of Living Dead, remake feito em 1990 do filme original dos anos 60).

O enredo não poderia ser mais simples, afinal o que muitos esperam de um bom filme de terror é uma dose nada modesta de sustos, e uma quantia quase equiparável de sangue, permeados por um suspense quase audível. O que realmente impressiona é o enfoque do diretor, que não é centrado nos mortos-vivos, e sim no desenrolar dos personagens diante da ameaça apresentada.

Na película, Barbara e seu insuportável e bobalhão irmão, Johnny (proferidor da frase famosa entre os amantes do gênero “zumbi”: “They’re coming to get you, Barbara!) estão visitando o túmulo da mãe deles, quando são atacados por mortos que levantam e saem em busca de carne humana. Depois de perder o seu irmão no ataque dos mortos-vivos, Barbara corre em busca de ajuda e acaba sendo amparada em uma casa de fazendeiros, por Ben (um negão destes bem estereotipados e cheios de personalidade que sempre seguram a barra nos filmes de terror). Com o passar do tempo, ela e Ben descobrem que há outras pessoas na casa, e junto com eles tentam decidir o que vão fazer para sobreviver ao incidente. As discordâncias começam, e junto com elas, toda a graça do filme. Fora da casa, criaturas antropofágicas, dentro dela seres humanos com suas diferenças, medos, desvios morais, egoísmos, apegos materiais, tão perigosos quanto o que os ameaçam (ou até mais).

O que diferencia um filme de Romero de todas aquelas outros de capas duvidosas de DVD, com qual ele divide espaço na seção de terror da locadora, está justamente no seu aspecto humano. Os humanos sobreviventes são mais fortes e inteligentes que os assustadores mortos canibais; eles estão acuados apenas e em desvantagem numérica em relação aos zumbis. Os vivos, para continuarem a viver, dependem da ajuda mútua, o que nem sempre conseguem fazer, por não deixarem de lado seus orgulhos e preconceitos. Os sobreviventes demonstram sempre a necessidade de escolher de um líder para assumir a suas responsabilidades e culpas, e quando parecem se organizar, sucumbem diante da desconfiança e do desespero.

O trunfo de Romero está em sua despretensão. Ele é cineasta de filme de zumbis, um dos gêneros mais desacreditados e alvo de chacotas pelo grande público. Ele é cineasta de zumbis, e com despretensão ele carrega seus filmes de reflexões sobre o comportamento humano. Sutilmente – não de forma escancarada como pretensiosos diretores endeusados pelo público cool/cult – sutilmente, ele passeia pelo individualismo humano, pelo sadismo, pelo apego à sua condição atual, pela sua incapacidade e despreparo diante de uma catástrofe, e termina o seu passeio nos questionando sobre a união humana. O que grande parte de seus filmes nos mostra é que a sobrevivência está intrinsecamente relacionada com a união entre os homens, e que, o que esta dedução tem de simples ela tem de ignorada nos dias de hoje. Diante de qualquer situação, provável como um problema no trabalho, ou improvável como um ataque de mortos canibais, Romero nos atenta para o fato de que sim, a união faz a força e que o seu inverso, a desunião é tão prejudicial quanto o próprio problema.

Acredito que o grande mérito de qualquer diretor e de qualquer obra produzida é ultrapassar a barreira da denominação genérica de seu estilo. Terror, thriller, gore, suspensa, drama, ação, ficção científica, romance – um bom filme não respeita essas barreiras verticais porque o próprio homem, objeto do cinema, horizontal como só ele, não cabe dentro delas. E é isto que me fascina tanto no universo apocalíptico de George Romero, é que ele reconhece que o homem não é apenas um personagem de filme de terror. O homem é um ser marchando pelo cotidiano, passível de desconserto quando algum acidente interrompe a marcha a qual se programou para fazer.

Dez anos depois de ter visto “Night of Living Dead” pela primeira vez, eu torno a assisti-lo afim de escrever algo sobre ele. Eu faço uma leitura que a compreensão dos meus nove anos não me permitia, e descubro o quanto a simbologia do morto-vivo é útil no exercício da compreensão de mundo. Vasculho mais um pouco, e através da indicação de amigos acabo me deparando com outras obras igualmente valiosas dentro do gênero, como o quadrinho norte-americano Walking Dead, que aborda de maneira semelhantemente humana, o tema dos mortos-vivos. Mas isto já seria tema para outro texto. Quem quiser saber mais sobre o quadrinho, pode lê-lo através da Internet fazendo o download das edições no seguinte link: http://hqvertigem.blogspot.com/search?q=walking+dead .

Para saber mais sobre a vida e obra de George Romero:

http://www.imdb.com/name/nm0001681/ (Em inglês, perfil do cineasta do Internet Movie Data Base)

http://en.wikipedia.org/wiki/George_Romero (Em inglês, biografia e filmografia)

http://www.cinemaemcena.com.br/cinemacena/variedades_textos.asp?cod=156 (Em português, breve histórico)

Last Days, de Gus Van Sant

Escrever coisas desimportantes sobre si mesmo, justamente como estou fazendo, é uma das coisas mais ridículas que alguém pode fazer, principalmente se for para estrear uma coluna sobre cinema em um blog. Sim, porque o tempo vai continuar passando e vai chegar uma hora em que você vai ser a negação do que era enquanto escrevia. E vai se achar ridículo quando ler sobre as futilidades que escreveu alguns anos atrás. É por isso que evito entrar na página de um blog em que passei três anos escrevendo, é por isso também que cada novo blog que escrevi, desde que abandonei este primeiro, não passou do texto inicial. Eu me sinto - e sinto que não só sou eu - que estou me reinventando a cada dia que passa. A cada arte a que sou exposto, a cada nova desgraça que acontece comigo, a cada mentira que digo para mim mesmo na esperança de aceitar a nova desgraça, eu não me sinto mais o mesmo. E por fim, na maioria das vezes, acabo por ridicularizar os meus antigos eus. Em outras, estas mais raras, acabo por sentir uma doentia nostalgia por quem eu era, e me pergunto por que ainda não voltei para casa. Em contrapartida, acredito que quando eu estava na idade da qual hoje me lembro com nostalgia, eu sentia também saudade de alguma época anterior. O ser humano é nostálgico. Na lembrança a vida é mais doce, ou - dependendo do que se recorda- menos amarga. Hoje é um dia rotineiro, em um mês com trinta dias iguais a este, exceto por pequenos detalhes. Por alguns acontecimentos que me trouxe de volta a quem eu era há uns seis ou oito anos. Eu fui exposto a uma nova interpretação dos meus ícones culturais daquele período. Eu revisitei o que eu costumava dizer que era, mas não era. O meu convite a essa revisita foi dado pelo diretor Gus Van Sant, em seu filme Last Days. Ele me fez ver o Kurt Cobain, não como a imagem rebelde que a mídia vendia, e eu consumia com um sorriso juvenil de quem comprava rebeldia em uma banca de revista. Sant me mostrou o Kurt frustrado, vivendo niilisticamente seus últimos dias, em um misto de tranqüilidade e colapso mental, bombardeado pelo mundo comercial que o atormentava, ainda que à distância, através de ligações telefônicas e videoclipes na televisão, cercado de murmúrios, silêncios, escrevendo em fluxo de consciência e acenando displicentemente a qualquer cumprimento devido ao cansaço de esboçar qualquer reação mais complexa ao que lhe diziam. No fundo, nem me importo se essa é a interpretação "correta" para o Kurt Cobain. Não existe interpretação correta para o Cobain. Como garantir que ele não foi mesmo uma peça no xadrez dos produtores? ouvir as diversas versões nas quais se sustentam seus "fãs"? Não mesmo. Kurt alcançou sua redenção se houve mesmo o suicídio. Last Days me fez ver a semelhança entre o vocalista do Nirvana e o existencialismo. Não importa o que realmente aconteceu, não importa o Kurt real, o que importa é alegoria que se pode criar. O seu suposto suicídio é uma reação racional para uma vida absurda - ainda que a maioria das pessoas tente encontrar uma solução alternativa. Eu estou aqui no colégio onde trabalho, passeando pelos mesmos corredores nos quais eu costumava sentar com um toca-discos e ouvir os albuns do Nirvana quando eu era estudante, nos mesmos corredores onde eu reunia os amigos e tocava as músicas do ao vivo acústico de Nova York no violão. Eu estou passando pelos mesmos espaços, agora vazios, com o mesmo acústico tocando nos headphones do meu mp3 player, e aprendendo que, depois que se cresce, nunca se vê os seus antigos ícones da mesma forma. Ou os abandona, ou os admira por outros motivos. Para conhecer, abandonar ou admirar o Kurt Cobain, líder do Nirvana, eu recomendo o filme Last Days, do Gus Van Sant.

Título Original: Last Days
Título Nacional: Os Últimos Dias
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2005
Site Oficial: www.lastdaysmovie.com
Estúdio: HBO Films / Pie Films Inc. / Meno Film Company / Picturehouse Entertainment LLC
Distribuição: Fine Line Features
Direção: Gus Van Sant
Roteiro: Gus Van Sant
Produção: Dany Wolf
Música: Rodrigo Lopresti
Fotografia: Harris Savides
Direção de Arte: Tim Grimes
Figurino: Michelle Matland e Allan McCosky
Edição: Gus Van Sant
Efeitos Especiais: Illusion Arts Inc.