Minha relação com o Papai Noel – ou com o Santa Claus, como o preferem chamar nossos amigos anglófonos – sempre foi permeada por bastante preocupação da minha parte. Primeiro porque com a atual constituição das leis de direitos autorais e com o elevado custo das patentes, me intrigava muito a maestria com que ele era capaz de reproduzir em sua modesta oficina de duendes, lá no Polo Norte, brinquedos tecnologicamente avançadíssimos como Playstations e Nintendos e, o que é mais incrível: não ser processado pelas grandes corporações de produtos eletrônicos.
Aos nove ou dez anos, eu tinha total convicção de que os japoneses eram homens muito bonzinhos que, na hora de cobrar os royalties, aliviavam a barra do velho Nicolau. Vai ver porque, e eu realmente suspeitava disso, a maior parte dos duendes era composta de pequenos orientais. Ou você acha que são mãos polonesas que fabricaram aqueles tênis Nike que o bom velhinho deixou para você no natal de 94?
Sempre tive uma opinião não muito favorável a essa história de renas voadoras. Rudolph e companhia que me perdoem, mas este meu Papai Noel businessman não conseguiria otimizar a sua logística usando um trenó e entregando todos os presentes pessoalmente, conseguiria? A Noel Inc. devia ter, na verdade, um excelente contrato com a FedEX.
Convencido disso, acreditei neste Papai Noel - muito mais verossímel, convenhamos – por mais de treze anos. Embora eu sempre tivesse na ponta da língua todas as mais plausíveis suposições acerca de sua existência, não fosse pela vinda dos Rolling Stones em 97, outras crianças teriam me convencido de que era tudo uma “mentira que sua mãe conta”.
O fato é que estava eu, com meus nove anos, diante da TV, assistindo maravilhado o Charlie Watts tocar bateria com os Stones. Lembro-me de repetir, cacofonicamente, no meu inglês disléxico e infante, algo que hoje soaria parecido com “I Can Get No... Satisfaction”. Eu nunca desejei tanto ter uma bateria. Podia me imaginar no fundo do palco, no comando das baquetas, dando uma piscadela para o Mick Jagger justo na hora daquela rufada de caixa que dá início à canção. Recordo-me de nunca ter comentado com ninguém sobre este sonho de tocar o instrumento. Era para ser um segredo meu e dos Stones, mas o Papai Noel descobriu de alguma forma e, quando acordo na manhã do dia 25, encontro em cima dos meus chinelos, uma pequena bateria. No início, julguei que o velho Santa lia os nossos pensamentos, mas, assustado com essa possibilidade, preferi pensar que ele tinha pago algum informante para descobrir o que queria aquele garoto que não lhe havia escrito cartinha alguma.
Acredite, quando os Stones dizem para você que o Papai Noel existe, não é o passar dos anos, muito menos a entrada na vida adulta que o fará pensar o contrário.
Hoje pela manhã, fui ao banco retirar os meus últimos trocados para as compras de natal. Na minha frente, fazendo questão de enfrentar a fila – embora a idade já o concedesse o caixa especial – estava um velinho gordo e barbudo, com cabelos grandes e desgrenhados. Retirava de uma bolsa-carteiro vermelha algumas contas para pagar quando, por descuido, derrubou toda a sua papelada aos meus pés. Ao me inclinar para ajudá-lo, pude ver uns papéis de contrato da FedEx, uma envelope escrito em algo que deviam ser ideogramas japoneses, além de uns comprovantes de passagem da American Airlines. Ao estender a mão para me agradecer, o velinho tornou visível uma tatuagem no braço, onde, batalhando contra o desgaste dos anos, sobrevivia orgulhosa uma tatuagem com a insígnia-língua dos Rolling Stones.


